Chamada em aberto: Dossiê Temático - A Recepção dos Clássicos nas Literaturas Modernas

Resumo:

Do conjunto de civilizações que habitaram a Bacia do Mediterrâneo na Antiguidade, destacam-se – quer pela produção de bens materiais e imateriais que lhes foi inerente no passado, quer pela transmissão desses bens ao mundo ocidental – as civilizações grega e romana. No que se refere à civilização helênica, o pensamento grego, com sua busca incessante por princípios e fundamentos que criassem um ponto de vista lógico-explicativo sobre a natureza e sua problematização acerca dos fatos político-históricos que circundavam a vida dos cidadãos, terminou por se constituir em um marco indelével para o desenvolvimento do modus cogitandi de seus próprios conquistadores, os romanos, de maneira que, a partir de um certo momento, esse legado passará a ser não mais genuinamente grego, nem propriamente romano, mas greco-romano. Com relação à contribuição grega para a construção desse legado, que se deu lentamente através de séculos, entre outros marcos civilizacionais, devemos salientar o cultivo das ciências, da filosofia, das artes em geral e, particularmente, de uma literatura das mais antigas de que temos notícia, da qual derivaram praticamente todos os gêneros literários cultivados ainda hoje no Ocidente, entre eles, a poesia épica, a poesia lírica, a tragédia, a comédia, o romance, a oratória, a fábula e a sátira. Não menos importante será a contribuição dos romanos, que assimilarão a cultura grega, modificando-a ao gosto de seu pragmatismo republicano ou imperialista, e transmitindo-a ao vasto território geográfico e cultural do mundo antigo, submetido às armas e às letras romanas, por meio da aemulatio, via de regra, dos autores gregos. Importa destacar, dessa forma, que a Antiguidade Clássica, fundamental, pois, para a gestação das Literaturas Modernas, mantém-se presente justamente em virtude de sua vitalidade, consequência das sucessivas leituras por que os diversos gêneros de poesia antigos, bem como a filosofia, a retórica, a história, a oratória, etc. passaram ao longo do tempo. Tais (re)leituras, de um ponto de vista dialético, foram determinantes para a constituição do que se poderia chamar Cânone Ocidental. Ora, se é verdade que os românticos tomavam Shakespeare como entidade fundante do gênio, justamente em razão do modo pelo qual o bardo inglês supostamente transgredira as convenções clássicas do fazer poético vigentes, desde a Antiguidade, no Ocidente, não é menos verdadeiro que esse movimento se dera em função das perspectivas sob as quais Shakespeare escrutinara a tradição greco-romana, escrutínio que se consubstanciava, contemporaneamente ao poeta, na emulação dos antigos. Não é à toa, portanto, que Dante é guiado por Virgílio na Divina Comédia: a imagem de Dante a seguir o poeta mantuano sob as sombras da selva oscura não é uma imagem poderosa da centralidade ocupada pelos antigos na Tradição Ocidental? O canto dantesco nasce com Virgílio, assim como as modernas literaturas vernáculas nascem do canto altissonante da antiguidade greco-romana.

O presente dossiê deseja reunir trabalhos cujos autores se dediquem à questão da recepção dos clássicos greco-romanos nas Literaturas Modernas, de quaisquer cronologias e línguas posteriores, por meio de uma abordagem interdisciplinar que busque refletir prioritariamente sobre o literário a partir da construção das identidades, da memória e dos espaços simbólicos, buscando o entendimento das interações entre práticas sociais, artísticas e culturais. Com isso, procura-se acompanhar e refletir as dimensões do debate em torno de temas tradicionais e/ou contemporâneos entre os Estudos Clássicos e as Literaturas Modernas, a partir de manifestações observáveis quer imediatamente no contexto brasileiro, quer no de outros países com os quais tais diálogos se estabeleceram e continuam a se estabelecer através da transmissão da cultura clássica. Sob as mais variadas denominações – intertextualidade, hipertextualidade, metatextualidade, arte alusiva etc. –, cada uma implicando seu viés específico, o diálogo diacrônico entre textos e autores tem se estabelecido desde a Antiguidade como a condição mesma da legibilidade, da crítica e da teoria literária. No caso das literaturas grega e latina, o procedimento interdiscursivo não apenas configura o nascimento do sistema literário no Ocidente, mas se constitui como principal meio de transmissão desses textos para a posteridade, já que muitos autores só chegaram a nós por meios indiretos, isto é, na maioria dos casos, por citação de comentadores posteriores. Modernamente, estudos sobre recepção de autores da Antiguidade Clássica abundam no exterior, mas são ainda pouco comuns no Brasil. Este dossiê se coloca, pois, como um espaço de incentivo e visibilidade aos pesquisadores brasileiros ou estrangeiros que se dedicam a identificar e ressignificar efeitos intertextuais oriundos de uma troca de influxos sistemática e indispensável à leitura e à escrita literária.

 

 



Caletroscópio - Revista do Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos da Linguagem da Universidade Federal de Ouro Preto

ISSN (on-line): 2318-4574  - Qualis CAPES: B2


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